É piloto. Já aterrou em mais de 65 aeroportos, em 27 países diferentes. Soma mais de 4000 horas no ar, das quais 3500 como piloto de aviação comercial. A distância? São mais de meio milhão de milhas náuticas. Tudo isto antes dos 30.

Mas não, a Inês não anda sempre com a cabeça nas nuvens. Comprometimento, foco e determinação são características vincadas desta miúda, que aceitou sem pestanejar o convite para fazer parte da rúbrica omniagirls do Blog da OMNIA.

O dia amanheceu fresco, com uma luz intensa e pálida. As cores lá fora desmaiavam e tudo apontava para uma sexta feira de outubro em jeito de despedida do verão.

A conversa estava marcada para o início da tarde porque a Inês aterrava em Lisboa às quatro da manhã, vinda do Rio de Janeiro, e assim teria ainda oportunidade para descansar.

Confesso que assumi que as horas seriam curtas para a Inês recuperar depois de uma noite de trabalho que implica tanta responsabilidade e exigência. Isso e o tempinho frouxo fizeram-me recear que a nossa conversa tendesse para a uma certa nostalgia e preguiça próprias destes dias cinzentos.

Estava tão enganada. Ao fim da manhã, e em poucos minutos, as nuvens dissiparam-se, o céu pintou-se de azul, o sol entrou pelas janelas inundando a casa e as cores ganharam vida. Pouco tempo depois a Inês toca à campainha, com um sorrisão de orelha a orelha, radiante, luminosa, a transbordar boas vibrações.

Estamos prontas para descolar e pergunto-lhe pela carreira de piloto – como surgiu e o que mais a fascina no universo da aviação.

Desde que me lembro de ser gente, a aviação e os aviões sempre estiveram muito presentes na minha vida. O facto do meu pai ser piloto e de me levar em viagens com ele, fez com que considerasse desde cedo o cockpit como a minha segunda casa. 

Não recordo propriamente um momento de decisão. Os meus avós contam que desde pequenina dizia que queria ser piloto, e que andava sempre com o chapéu da farda do meu pai. 

Como soube desde muito nova o que queria, fui-me preparando – e ao coração dos meus pais – para que mal acabasse o 12° ano começasse logo a estudar aviação. Entrei na faculdade em Ciências Aeronáuticas e ao mesmo tempo fiz o Curso de Piloto de Linha Aérea. 

Jamais esquecerei a adrenalina do momento em que fui largada (voei pela primeira vez sozinha). Disse muitas asneiras e rezei muito para aterrar o avião bem. Gostava de ter isso filmado.

É muito nítido o entusiasmo com a que a Inês descreve o estilo de vida que abraçou e tudo o que lhe proporciona – por um lado, a oportunidade de conhecer novos países e pessoas; por outro, o desafio de estar em constante aprendizagem, acompanhando a evolução tecnológica e as mudanças que ocorrem diariamente na indústria dos aviões.

Porém existe a questão dos horários, que não são de todo convencionais. Para milhões de pessoas se deslocarem todos os dias, e seguirem as suas vidas tranquilamente, são necessários profissionais que sejam capazes de perder algumas noites.

É preciso aprender a gerir descansos. E para quem tem família, filhos e até mesmo animais de estimação, como é o meu caso com o Rocky, às vezes é preciso fazer alguma ginástica.

 

E os destinos favoritos? A Europa é encantadora, mas é nas culturas mais distantes que a Inês encontra algo de mágico que a atrai especialmente.

Onde mais me sinto em casa é nos Estados Unidos e em África. Sim, nada a ver! Isto acontece porque vivem múltiplas Ineses dentro de mim. Nova Iorque representa a liberdade de andar pelas avenues, entrar e sair do metro e pedir um café americano e uma cookie em qualquer corner, olhar em volta e ver os arranha céus, e ao mesmo tempo desfrutar de um Central Park verde, gigante. Consigo sentir-me tão grande e tão pequenina ao mesmo tempo! É literalmente viver um filme americano. A Arte, a Moda, as pessoas e a confusão nas ruas põem a minha parte cosmopolita a vibrar.

Depois Moçambique, aquela paisagem, a humildade e energia daquele povo, a simplicidade e felicidade em que vivem. Ajuda-me a fixar os pés na terra, a equilibrar um pouco o meu lado mais consumista e a ver que precisamos de muito pouco para fazermos desta nossa passagem algo bom e positivo.

 

Ainda sobre os aviões, a Inês revela, a rebentar de orgulho, que concretizou recentemente o sonho de voar pela primeira vez com o pai como tripulação – Comandante e Copiloto. Podemos espreitar esse momento aqui

Despido o uniforme, chegou a altura da Inês soltar o longo cabelão loiro – e icónico –, vestir uns jeans e uma blusa num look muito feminino, mas confortável, e desvendar um pouco mais da miúda por trás da farda.

Intensa. Faço tudo com intensidade, amo, trabalho, falo e vivo com intensidade. Não deixo nada a meio ou por acabar. Quando me comprometo a fazer alguma coisa, não há ninguém que me diga que não consigo, aliás esse é o melhor pretexto para fazer mais e melhor. Outra característica forte em mim é amar o próximo.  Acho que o mundo só avança com amor e compreensão por quem nos rodeia. Gosto de paz e silêncio, gosto de estar sozinha. E ao mesmo tempo, também sei fazer muito barulho. Os meus amigos chamam-me vuvuzela, imagina! Tenho um grande sentido de família, e para mim isso é a base de tudo. Natureza, campo, mar, família, amigos, boa comida and I’m there!

E a verdade é que facilmente se confirma o carisma e a força da Inês pela forma como nos olha nos olhos, pela expressividade dos seus gestos enquanto fala, pelo sorriso rasgado e a gargalhada generosa.

Para compensar todas as viagens, os horários exigentes e a correria do dia-a-dia, a Inês privilegia momentos passados em casa, onde aproveita para ler, ver filmes e series e estar com a família. Também gosta de reunir os amigos à volta de uma mesa com bons petiscos. Por vezes foge aos fins‑de‑semana para o campo, para montar a cavalo e levar o Rocky.

Passeá-lo ou simplesmente observar como fica feliz quando corre livre, são os melhores programas para mim.

Falando de Rocky, costumo dizer que a raça dele é Bom Moçambicano. Na verdade, é um rafeirote feliz, e como foi de lá que o trouxe, acho que o nome lhe assenta como uma luva. Se bem que às vezes não é assim tão bom, e revela o lado mais rufia. Até este meu cão é viajado! Sobretudo é um companheiro de todas as horas, que, sem qualquer dúvida, dá muito mais cor à minha vida.

 

Numa altura em que falávamos dos programas de eleição para relaxar e manter o equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal, do quanto valoriza a companhia das pessoas que lhe são mais queridas, a Inês dedicou uma boa parte da nossa conversa ao capítulo da irmã.

A minha querida irmã, morro de amores por ela. E de orgulho! Sabes aquela coisa de querermos ser como os irmãos mais velhos é mesmo verdade, eu sinto muito isso. Apesar de só termos 16 meses de diferença, e de termos andado à bulha durante a vida quase toda, é a pessoa que mais amo no mundo. Sei que poderemos contar uma com a outra para sempre, sem nunca falhar. É um amor inexplicável, e que se Deus quiser um dia vou poder recriar nos meus filhos. Digo sempre que espero que o meu primeiro bebé não seja um terrorista, para não ficar traumatizada e poder dar-lhe muitos, muitos irmãos. É o melhor do universo.

Temos um plano preferido as duas, uma espécie de troca. Eu vou “às compras” de comida a casa da Catarina – que é nutricionista. E ela vem “às compras” de roupa, sapatos e carteiras, à minha.

Quem conhece a Inês sabe a paixão que esta miúda tem por Moda. A Inês não esconde, se os aviões não tivessem surgido primeiro, certamente estaria a trabalhar na fashion industry.

Sempre gostei de roupa, e por andar muito tempo fardada sinto que gosto de caprichar quando me posso vestir “normal”. Tenho zero medo de arriscar e normalmente gosto mesmo das coisas mais originais. Não tenho um estilo definido, tanto estou mais clássica e simples, como mais militar, rockeira, menininha. Visto literalmente o que me apetece, misturo cores e padrões, texturas e até proporções! Gosto dumas boas botas plataforma e duns ombros bem marcados. Se tivesse uma imagem de marca acho que era mesmo isso, umas Dr. Martens, camisa branca de ombros marcados e umas jardineiras. Carregada de brincos e anéis and I’m ready to go. Brincos e anéis sim, nunca falham. Argolas em todos os furos e anéis nos dedos mindinhos, já há algum tempo que esta combinação é a minha cena.

Inspiro-me muito no que vejo online e noutros países para onde viajo. As minhas amigas normalmente gostam do que visto, mas dizem que não vestiriam, os homens normalmente não gostam ou não percebem. Nesse sentido acho que partilho da atitude da Leandra Medine, também eu sou um pouco Man Repeller. Honestamente acho que é a minha veia criativa. Há quem pinte, escreva, desenhe, eu uso a Moda para isso.

 

À parte dos jogos e da exploração que a Inês faz do seu próprio estilo, participou recentemente na campanha de lançamento da marca Conscious Swimwear. Aqui a Inês assumiu o papel de modelo, mas também pôde dar o seu contributo no styling e preparação da produção fotográfica.

Um dia, em tom de brincadeira, a Joana perguntou-me se gostaria de tirar umas fotografias com os bikinis que estava a desenvolver para a sua nova marca mega ecológica – e que defende tanta coisa em que acredito.

 Como conhecia bem a Joana, tive bastante liberdade para sugerir ideias e pôr a minha criatividade a funcionar. Foi a primeira vez que percebi que afinal podia acrescentar algo nesta área. É que o que me dá mesmo gozo é tudo o que está por trás da fotografia. Conjugar peças, acessórios, perceber o que funciona nos diferentes cenários. Faço estes trabalhos por “gosto”, porque realmente me dão prazer. Projetar, fazer acontecer, e no final chegar a um resultado com o qual me identifico.

A melhor parte? Conhecer gente nova, comunicar, trabalhar com pessoas criativas!

Não podíamos terminar este encontro sem tocar no tema dos acessórios e das joias. A Inês diz-se fanática dos anéis e dos brincos. Usa anéis nos dedos todos e brincos na orelha toda.

Neste momento estou mais inclinada para o ouro amarelo. Dá um toque irreverente e simultaneamente clássico que acho que me caracteriza muito.

Quais são as minhas peças OMNIA preferidas? Todas as argolas. Pequenas, grandes, gordas ou magrinhas. Amo todas.

 

 

O Labrador e a Miniature Schnauzer que aparecem nas imagens chamam-se Spot e Luna e vivem na bonita casa que acolheu esta sessão fotográfica.

Mariana Dimas